chá

Coisas que esquecemos pelo caminho

Quem procura, sempre acha (tudo) o que precisa prontinho para levar pra casa. Pão quente, que sai de hora em hora; roscas incríveis, polvilhadas com açúcar; bolos com muitas camadas de recheio – basta um pulinho na padaria do bairro. No supermercado então, nem se fala... Nem suco de laranja precisa espremer mais. Mas confesso que tenho saudades da jarra de laranjada clarinha e açucarada sobre a mesa do lanche da tarde. Isso sem contar os chás prontos, quase todos adoçados artificialmente (quem disse mesmo que adoçante ao açúcar é preferência nacional?); os biscoitos; os bolinhos; os doces de pote. Tem tudo pronto em todo lugar, mas tenho uma séria convicção de que estamos esquecendo muitas coisas pelo caminho. Esses dias mesmo estava organizando um encontro de última hora. Um chá da tarde em um sábado de sol e vento fresquinho. Deu vontade de preparar versões caseiras de quase tudo o que, fácil, fácil, encontramos pronto na lojinha da esquina. Vesti o avental e me pus a preparar versões exclusivas de chás, com o conteúdo de saquinhos e caixinhas guardadas na dispensa. Umas gotas de limão aqui, umas colheradas de mel ali e, quando vi, tinha jarras de uma bebida que não encontraria em nenhuma garrafa pet do mercado. Já muito empolgada, abri o caderno de receitas e pincei dali receitas anotadas e ainda não testadas. De duas fornadas, saíram um bolo de açúcar mascavo coberto com frutas secas caramelizadas (de causar arrepios de prazer à primeira garfada) e um fofíssimo bolo de chocolate, escandalosamente recheado com chocolate amargo. E como chocolate nunca é demais, resolvi também abrir uma lata de leite Moça e preparar o brigadeiro mais caseiro que pude – e que, cá entre nós, coloca qualquer receita gourmet da loja fina do shopping no chinelo. Faltava uma pitada de sal na receita da minha festividade doméstica. Resisti bravamente ao impulso de comprar 1 quilo de pão de queijo na esquina e tirei o fermento biológico da geladeira. Em meia hora, focaccias bem temperadas com sal grosso e perfumadas com alecrim estavam prontas para ir ao forno e, posteriormente, causavam gritinhos de alegria entre os convidados que tiveram o prazer de sentir o gosto (e o aroma) do pão de assadeira saindo fumegante do forno. Assim, no meio de uma tarde de sábado, me lembrei do que, por muito pouco, quase ia me esquecendo pelo caminho. Será que você também não anda esquecido?